
APOIO:

Desde a sua formação a Cia.Phila7 vem lançando um olhar investigativo para a possível construção de novas linguagens que, aliadas às estéticas já estabelecidas, à grande velocidade de informação e à possibilidade quase infinita das redes que se formam através dela, criem parâmetros novos para uma poética contemporânea.
Sempre tendo o teatro como foco central, a Cia. Phila7 experimentou relações de contaminação de diversas linguagens artísticas até chegar à construção de espetáculos onde a imagem e a internet transformavam-se efetivamente em palcos virtuais. A presença do ator ao vivo e em imagem, conectados a outras Companhias em outras partes do mundo levou à compreensão de que a imagem e a presença não eram dois momentos distintos que traduziam a condição do personagem, mas ao contrário, significavam um continuum em dois estados diferentes.
A partir daí surgiu a necessidade de um espaço que começasse a se transformar num signo desta nova idéia, ou seja, um espaço com muitos espaços. Um espaço heterotópico, segundo Foucault. Se nós podemos, de formas distintas nos multiplicarmos em várias redes, personas e formatos, se apresentam as questões: Qual nova ética é necessária para esta estética? Quais são as responsabilidades deste indivíduo múltiplo?
Cidadão não é um indivíduo que está no mundo, mas o que tenta transformá-lo.(1)
A partir dessas premissas a Cia Phila7 apresenta seu novo projeto: WeTudo – DesEsperando Godot.


Samuel Beckett escreveu um dos textos seminais do teatro contemporâneo, “Esperando Godot”. Em uma construção entre o clownesco, o farsesco, o drama e a tragédia, lança o indivíduo na inação e na impotência do homem frente às perplexidades do mundo hoje.
WeTudo – DesEsperando Godot, estabelece um diálogo com os personagens de Beckett, a partir de uma dramaturgia que joga os atores/personagens numa condição oposta à inação e à impotência; estão em constante movimento e podem ir para todos os lados. Assim, as grandes questões de Beckett são revistas e expandidas pelos paradigmas do homem contemporâneo.
Vladimir- O ar está cheio de nossos gritos. (Escuta.) Mas o costume os sossega.

Em Esperando Godot dois homens, juntos à uma árvore, uma raiz, esperam indefinidamente pela chegada de Godot. WeTudo se inicia exatamente no momento em que eles desistem da espera. Partir significa escolher, determinar, procurar um caminho, tomar a vida nas mãos, abandonar a raiz e buscar o rizoma, as ligações infinitas, à procura de respostas que esperavam eternamente serem respondidas por Godot. Entram nos fluxos, perdidos, desencontrados, mas na potência de atuar. Tudo a fazer.
Tomando como base as redes de Comunicação Mediadas por Computador no processo de elaboração um novo imaginário construído pelo comum, enfatizamos a criação de uma estética contemporânea, gestada com base na rede de afetos, na possibilidade de confabular e no modo como fluxos de desejos emergem, organizam e transformam nossa experiência, assim como, abrem espaço para uma arte ativista, produtora de nova subjetividade, que tenciona as forças de dominação e em relação ao potencial da liberdade da sociedade.
A arte no jogo dos afetos causa estranhamento, possibilita conhecer, vivenciar, experimentar de outro modo o encontro com o mundo e com o outro. Na perspectiva aqui esboçada trata-se da possibilidade de resgatar como força criadora, o instante, o insignificante, o detalhe, a sutileza que a rápida apreensão das coisas torna imperceptível. Enredar o fluxo da vida como na democracia espinosista: arte de organizar encontros, mas além de organizar, hoje, de conectar encontros num campo tecnologicamente ampliado de experimentações. (2)

A encenação de WeTudo – DesEsperando Godot acontece por todo o espaço GAG. Isto compreende não só as paredes que o delimitam, mas também, através de telas cênicas de projeção e das redes de conexão, o espaço expandido por onde os atores/personagens e o público (convidado a trazer seus computadores e celulares) trafegam livremente. Apoiada num texto escrito pela própria Companhia, a encenação constrói um percurso para os dois personagens/atores, criando uma interlocução com o público presencial e os que penetram no espaço pela rede.
Através da distribuição aleatória do público pelo espaço de encenação, de conexões wi-fi e a partir da trajetória dos atores, o “dentro” e o “fora” se comunicam, se interrogam, preenchem o lugar com imagens, textos, sons, idéias. O público presencial e os operadores na rede, por contaminação, transformam-se em milhares de Vladimir e Estragon que, junto com os personagens, deixaram de esperar Godot.
(1) Augusto Boal
(2) “ENREDAR: A ARTE DE ORGANIZAR ENCONTROS” de Luiza Helena Guimarães Ferreira


FOTOS DE RICARDO FERREIRA